28 fevereiro, 2008

Amar


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
.

.

.
Carlos Drummond de Andrade

3 comentários:

Anônimo disse...

Claaroo, boa idéia que você me deu. Vou colocar o seu blog nos favoritos também. :D



By Fran
http://devassaaar.blogspot.com/

Anônimo disse...

Já te adicinei no orkut, Rosi.



By Fran
http://devassaaar.blogspot.com/

Anônimo disse...

UEHAUHAUHAWUH

Tenho!
fran_lucio@hotmail.com

:D