12 maio, 2008

Enquanto a chuva cai


A chuva cai. O ar fica mole . . .
Indistinto . . . ambarino . . . gris . . .
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como o bailar.


Torvelinhai, torrentes do ar!


Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.


Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.


Volúpia dos abandonados . . .
Dos sós . . . — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer . . .


Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!


A chuva cai. A chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!


Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!


E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas,
Quer quando mansamente cais.


É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas-d'água!


Manuel Bandeira

17 comentários:

Um Momento disse...

Nesras palavras me perdi...
A chuva senti...
Quedas de água em que me envolvi:)
Grata pela partilha
Deixo um beijo...em ti

(*)

o¤° SORRISO °¤o disse...

Maravilhoso blog, com poemas e poetas que encantam, não só você, mas todos nós.
Lindo!
Beijos mil! :-)

poetaeusou . . . disse...

*
e a chuva cai,
regando a amizade,
,
conchinhas
,
*

Three Love´s disse...

...chuvaº.º.º...
º
º
º
... acordar ao som da chuva,
"volúpia dos abandonados"...

é muito bom vir aqui,

beijos

(Un)Hapiness disse...

obrigada pelas visitas!:)

belo poema hein...lol

kiss

Anônimo disse...

Ah...Bandeira, dono das palavras certeiras....

Duarte disse...

Fotografia muito oportuna para adornar um bonito poema. Boa eleição!

O Profeta disse...

Solta nota de uma flauta
Um retrato preso à mão
Um tambor fora do compasso
Segue o bater de coração


Convido-te a partilhar as emoções
Deixadas pelos ponteiros de um relógio…


Doce beijo

Anônimo disse...

E está chovendo aqui em Recife - um abraço!

Layana. disse...

amoo a chuva!
elaa noos acalma..
simplismente lindo♥

adoorei seu blog..

Beijo!

Susie - Q disse...

Manuel Bandeira, não sei se já leu seu poema Desencanto, pois se não leia, é com certeza o meu preferido!
Adoro ler os poemas que posta aqui!
Bjs.

Je Vois La Vie en Vert disse...

Só gosto da chuva quando estou na minha cama bem quentinha porque sendo oriunda de um país onde a chuva é uma constante, prefiro o sol !
Hoje deixei uma tentação no meu cantinho verde só que vives muito longe para poder prová-la ! Mas se quiseres passar por lá para aprender, serás bem-vinda !
Bom Fds
Beijinhos verdinhos com sabor a ... chocolate belga

Juani disse...

bello poema, buen fin de semana
saluditos

Cristiana Fonseca disse...

Lindo blog, lindo poema bela escolha, adoro suas visitas
Beijos grande
Cris

Auíri Au disse...

Me senti em labirinto entre as palavras..
O Brasil tem cultura, basta sabe escolher..


beijos

Duarte disse...

Fizeste-me recordar o poema "A balada da neve"...

Bate leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente,
e a chuva não bate assim...

segue

Augusto Gil

Cristiana Fonseca disse...

Olá,
Voltei pra reler, e me encantei novamente, linda , belas escolhas
vc faz. lindo espaço
Beijos,
Cris